Grito Literário

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Name: Vitor Taveira
Location: Vitória, ES, Brazil

Comunicador por formação e necessidade. Sonhador a todo momento, poeta quando dá tempo.

Friday, December 04, 2009

ê
foi
um feito
subir tão alto
pra respirar esse ar
r...a...r...e...f...e...i...t...o

Monday, November 30, 2009

Eu queria quando eu era...

I- Jovem
Poupar livros,
gastar utopias,
ganhar dinheiro.

II- Adulto
Poupar dinheiro,
gastar livros,
ganhar utopias.

III- Idoso
Poupar utopias,
gastar dinheiro,
ganhar livros.

Medo

Saí pra tomar um ar
esqueci o medo em casa
desbravei o mar
cheguei a Togo
pisei em brasa
brinquei com fogo
voltei pra casa...

Achei que ainda era cedo
para reencontrar o medo
mas ele já tava tão velho
que tentei uma fuga
esbarrei no espelho
e vi na cara muita ruga
e no coração um corte
com sangue vermelho
correndo forte

Pensei ter sorte
que de todos medos
só temia a morte
que me corria entre os dedos

O corpo boiava torto
mas o homem vivia
o mar é que estava morto

Monday, November 16, 2009

Drive True

Dirija seu destino
Escolha sua verdade
Eleja seu número
Peça pra viagem
Mate a sua fome
Recicle sua embalagem

Tuesday, November 03, 2009

A cidade
cresceu no concreto
dos prédios
desabou no abstrato
dos tédios
da sociedade

.......................................

Ironia
Todas as palavras
cabem no universo
e o universo cabe
em uma só palavra

................................

A poesia
está todo dia
no livro
na rua
na vida

analfabetos
atropelados
morrem

ninguém quer
ler
ver
viver

Wednesday, October 21, 2009

Ermitão

Aqui do alto eu rio da sociedade
de um lado eu vejo o rio
doutro miro a cidade
de um lado sopra vento frio
doutro venta a saudade

rio-me dos carros parados em fila
dos bois sendo tocados pelo peão
do vai-vém vagaroso da vila
do corre-corre da estação

vejo o abrir da porteira e do sinal
a buzina do carros e dos leiteiros
e assistir os diferentes dias inteiros
faz ver que viver no fundo é igual

daqui de cima eu rio de filosófos e profetas
e lá em baixo eu miro em segredo os poetas
de um lado vejo Caeiro tocando o rebanho
doutro Andrade olhando a paulicéia
pela fresta espio Marília tomando banho
e assisto ao atropelamento de Macabéa

daqui de cima contemplo
as gentes que fazem colheita
a gente que vai para o templo
o fanatismo da seita
o barulho cidade que se deita
o puro despertar do campo
a correria corriqueira do trampo

Do alto eu brinco de Deus
de longe digo adeus
aos capiaus que querrem ir pra cidade
aos urbanos que sonham morar na roça
mas não têm coragem de largar
a vida da sociedade
ou a boléia da carroça

E vivo sozinho a observar
entre um lado ou outro
prefiro estar noutro
Aqui em cima é meu lugar

Hai cais 2.0

Já caem as folhas
Todo outono pede um vinho
Então saque as rolhas

...............................................

Só mesmo um otário
para buscar uma rima
no dicionário

Dark Angel

Escrever um poema
no papel higiênico
de madrugada
no banheiro
só pra não esquecer
o que queria dizer
pra ela amanhã
e nem acender a luz
pra não acordar
o seu amor
que dorme
angelical

Um, dois

Um dia, duas pessoas
Uma chuva, dois guarda-chuvas
Um caminho, duas direções
Um gesto, dois movimentos
Um pra lá, outro pra cá
Dois passam onde
Um só cabia

Uma troca de olhares, dois sorrisos
Um acontecimento simples, duas estrofes
Um poema.

Thursday, August 27, 2009

Chapare

Depois de tanto tempo ver todo esse espetáculo de novo fez minha alma flutuar. Sentir outra vez aquela melodia silenciosa enquanto o carro deslizava sob o asfalto entre as montanhas verdes enfrentando a neblina que oculta seus mistérios. Sentir outra vez meu espírito tocar o céu me fez reviver aquele tempo de intensidade que havia virado apenas uma memória.

Chegando ao povoado vi que aquela velha casa de um amarelo suave já não estava ali. Ao canto do que se tornou um restaurante, tocava charango um velho. Levava o chapéu e toda a vestimenta tradicional dos indígenas locais, mas se notava a mestiçagem do seu rosto e o sotaque do quéchua que saía de sua garganta débil a acompanhar os acordes trêmulos de seu charango.

Fui perguntar o que havia passado com Dona Francisca, antiga moradora da casa amarela. Na verdade o que me movia não era o interesse pela simpática senhora que me vendia as garrafas de chicha que alegravam nossos fins de semana. Estava fascinado com a imagem daquele índio postiço que ao mesmo tempo parecia carregar tamanha sinceridade. Minha ânsia de rever aqueles velhos amigos se esvaiu por um momento de obsessão nessa figura taciturna. Foi difícil arrancar-lhe as palavras, mas me disse que não era dali, que vinha de outro país, não importava qual, mas que havia escolhido viver assim: simples, devoto da natureza e das tradições que não lhe ensinaram o berço e sim a vida.

Sua voz carcomida pelo tempo se fazia de difícil compreensão devido à grande quantidade de folha de coca que levava em sua bochecha para vencer o cansaço do dia de trabalho no campo. Sua cara enrugada escondia qualquer expressão de emoção. Dizia que quando tinha mais ou menos minha idade um senhor quase centenário lhe contara uma história sobre o encontro de dois gigantes da natureza. Conta que durante sua caminhada, lá do alto do seu esplendor, as montanhas andinas contemplavam como um condor o avanço dum tapete verde e intenso. Do outro lado a Amazônia se estendia correndo suave como um rio e assustou-se ao olhar para cima e ver que as montanhas estufam seu peito imponente. Ali no centro, comprimidos entre gigantes, a gente temia o conflito que poderia ser o fim para eles, tanto física como espiritualmente, já que o duelo entre gigantes traria o desequilíbrio que a natureza não poderia suportar.

E que cada dia viam avançar com mais intensidade um em direção ao outro, não podiam notar raiva ou qualquer sentimento de nenhuma das partes, só sabiam que havia uma força maior que dirigia tudo aquilo e que teriam que respeitá-la. Pediram ajuda dos deuses para que tudo acabasse bem e pudessem outra vez ter seu lar. Fugiram dali esperando o choque e se refugiaram à margem do rio.

Pensaram que em todo esse tempo de cultura e tradição em harmonia com a Pachamama já pudessem entender o que queria a terra mãe. Mas a surpresa foi grande quando viram chegarem-se tão perto os dois e que não houvesse nem um sinal de temor ou de inveja, puderam contemplar num camarote o cordial abraço de gigantes que durou um breve instante enquanto os dois terminariam por descansar suas forças em tranqüilidade, como um pós-orgasmo natural que os deixaria para sempre paralisados juntos nesse leito esplendoroso. Ali encontrariam a paz dos apaixonados, à sombra das árvores, ao conforto das montanhas.

Enquanto se abraçavam o verde grudava à pele da montanha e a floresta era levada às alturas pela inclinação de seu companheiro no mais sincero amor da natureza. Terminaria o centenário senhor dizendo que “o que o poder da natureza criou, o homem nomeou Chapare.”

Ainda jovem refletiu sobre as palavras desse senhor centenário e pensou porque ele mereceria menos crédito que uma televisão. Pensou nas tantas lendas e histórias que escutara esses tempos e percebeu que a verdade nada mais era que uma questão de crença. E que aquele lugar teria mais energia mais vitalidade que qualquer lugar onde o homem poderia construir seus prédios e chaminés que ocultariam o brilho das estrelas.

Não pude entender porque o senhor se levantaria de maneira tão bruta, antes de terminar de dizer sobre como havia sido sua chegada e adaptação ao lugar. Deu-me as costas e seguiu dedilhando seu charango uma canção tradicional. Antes que ele se perdesse entre uma estranha neblina que nunca havia estado ali antes, pude perceber a ponta da tatuagem que levava no pescoço, ninguém além de mim poderia ter aquele desenho do puma com seu olhar penetrante. Vi que mancava ligeiramente da perna esquerda e me lembrei das seqüelas do meu acidente automobilístico no ano passado. Acordei na minha cama suando e assustado. Me causou uma certa confusão perceber que aquele velho na verdade era eu.

Wednesday, June 10, 2009

Ecosol

A economia solidária não é nenhuma novidade. Ela remonta aos primórdios das relações humanas, em que pela necessidade ou fraternidade trocavam-se produtos ou dividiam-se tarefas entre pessoas, famílias e comunidades. De lá pra cá, o mundo deu muitas voltas. Tantas voltas que hoje parece ter virado de cabeça pra baixo. Se houve intenção de se construir um projeto de humanidade, ele parece ter fracassado. Um fracasso talvez imperceptível aos raciocínios lógicos dos mais bem pagos executivos engravatados. Porém um olhar mais atento ao redor não pode negar que a desigualdade, a exclusão, a exploração estão em todos os cantos.

Mas então como pode tudo isso durar? Como pode isso tudo ser normalmente aceito, mesmo por aqueles que sofrem com esse sistema? Ah, vão dizer que a culpa é da mídia. A culpa sempre recai sobre a mídia! Vão dizer que a televisão aliena e que os jornais estão todos ligados a grandes grupos endinheirados que defendem sempre seus próprios interesses.

Pode ser. Mas vou lhes dizer que Adorno, pra muita gente, não é nada mais que enfeite. E que enfeite pra alguns é fonte de renda e cidadania, através da economia solidária. É pela cooperação que muitas pessoas descobrem que nesse mundo cão é possível se libertar. “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta e que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Já Neoliberalismo é uma palavra que destrói o sonho humano e que há quem tente explicar e quem tente entender através da verborragia acadêmica. Porém não é mais do que uma palavra que ensinam na escolinha de ensino supostamente superior. A verdade é que se perguntarmos pra galera, certamente a maioria não vai saber o que significa essa famigerada (maldita) palavra, embora todos sintam seus efeitos. Isso eu aprendi com Dona Antônia, negra de origem popular, líder comunitária, lutadora, praticante de economia solidária, intelectual (sabida) formada pela escola da vida, doutora honoris causa (entendida...) em sociologia (...em matéria de saber como funciona esse mundo doido).

E se é pra falar em etmologia palavras difíceis economia é conhecida popularmente como “gastar pouco”. Mas acrescentado uma palavra temos economia solidária, que pode ser uma oportunidade de gerar renda e independência. Porque não despedir o seu patrão?

Ah... se alguém acha que faltou alguma palavrinha nessa sopa de letras... bom, solidário todo mundo sabe o que é, ou melhor, todo mundo acha ou diz que é, mas agente sabe bem que na prática nem sempre é assim né? Solidariedade é uma palavra mais difícil de dizer, mas mais fácil de entender que egoísmo. Afinal você entende melhor o amigo que te empurrou ou o que te ajudou a levantar?

Mas pense bem... se você fala de egoísmo olhando pros outros, porque não pensar em solidariedade olhando pra si mesmo?

Saturday, January 10, 2009

Verde

O céu tinha o mesmo cinza
dos prédios que o sujavam
já nao podia distinguir
onde começava a poluiçao

Quis correr até a montanha
para ver o que havia do outro lado
Antes de chegar ao topo caiu a noite

O céu tinha o mesmo negro
das rochas que quase o tocavam
já nao podia distinguir
onde começava a escuridao

Despertaram os primeiros raios de sol
e ao olhar para o outro lado

O céu tinha o mesmo verde
das árvores que lhe beijavam
e já nao podia distinguir
onde terminava a floresta

Monday, July 21, 2008

Universo

Quem nunca rimou
que escreva o primeiro verso

Tuesday, June 24, 2008

O último sopro da paixão

Ele não esperava naquela idade, depois de tantos anos, encontrar a paixão novamente. Depois de ver e viver de tudo. De nascer, engatinhar, andar, despertar a puberdade, virar homem, amadurecer, ter filhos, envelhecer, e ficar viúvo. Pensava que só lhe faltava uma coisa na vida: Morrer.

Eis que encontrou-a algum dia em suas caminhadas matinais rumo à padaria, andando cabisbaixa com um olhar perdido e amedrontado. Foi dos mais tímidos toda a vida mas quando se está idoso já não importa nada, ganha-se o álibi para falar e fazer qualquer coisa que, na pior das hipóteses, sentem pena do velho senil. Foi assim que chamou-a e começou a falar-lhe no meio da rua. Ela correspondeu cordialmente e dali nascia uma linda relação de cumplicidade, nome genérico desse remédio que se chama amor.

Não precisava mais de sexo. Uma vontade que se deixa de sentir não faz falta. A velhice leva alguns prazeres e traz outros. É preciso reinventar as formas de senti-lo. O gozo da idade avançada é ilibidinoso, delicado e diferente. Ele necessitava mais que tudo de uma companhia fiel. Precisava de carinho, muito mais de dar do que receber- e ela, o contrário. A timidez veio intrínseca na personalidade dele e fez-lhe desperdiçar oportunidades de falas e de carinhos que agora despejava sob sua nova amante. Gastava horas falando a ela sobre tantas coisas, coisas da vida, coisas que nunca teve coragem de dizer. Suas histórias de uma vida longa, discreta mas bem vivida. Ela ficava quietinha, escutando com seus olhinhos arregalados. O teatro da vida finalmente oferecera-lhe a oportunidade de apresentar seu monólogo. Num palco de areia com cenário natural de pôr-do-sol e lotação máxima: só ela tinha direito de assistir a peça.

Apesar da beleza do mar e da praia ela estava quase sempre mirando ele, pedindo com o olhar mais um carinho. Ela sempre foi amiga da natureza, nasceu e cresceu abraçada com a liberdade. Acostumara-se à beleza do mundo e agora no fio de vida que restava queria contemplar a graça humana e o carinho que nunca ninguém lhe dera antes. Ele, só depois dos 80 anos foi perceber verdadeiramente o sabor do vento na cara. Na praia, os dois corriam atrás um do outro e outro do um, brincavam-se e rolavam na areia. Faziam por eles mesmos, porque assim se sentiam felizes. Nem percebiam que ofereciam aos que passavam uma lição de vida. Multiplicavam sorrisos e comentários. Era belo aos olhos alheios ver que mesmo com a idade avançada pode-se continuar a viver com a intensidade, espontaneidade e alegria de uma criança. Todos que lá no calçadão os avistavam podiam entender que haviam nascido um para o outro.

E eles não se diziam, entretanto sentiam no fundo que o que o único desejo que tinham era viver juntos até o fim dos dias. Ou até o primeiro deles ir. Só o pensar de que ela pudesse partir antes dele já lhe estremecia o peito e por isso ele desviava o pensamento. Mas no fundo preferia ir primeiro, porque ela era o último sentido que ele encontrara na vida e também porque sabia que ela superaria rápido e ainda poderia ser feliz com qualquer outro que lhe oferecesse cama e afagos. Ele pensava nela e ela não pensava em nada, apenas vivia. Ele tinha muito mais anos vividos, mas ambos já haviam há muito entrado na curva descendente da vida.

O dia tinha nascido há pouco e ela estava deitada no sofá com a mesma cara séria que parecia explodir em sorrisos por dentro. Ele desligou a televisão para ouvir o silêncio. Sentiu que sua hora se aproximava. Enquanto juntava forças para suas últimas carícias ainda disse baixinho e ofegante que ela fora a mais grata surpresa de sua vida. E que ela era na verdade não só companheira, mas sua mãe de morte. Foi há pouco mais de 9 meses que se conheceram e agora aproximava-se o fim da gestação. Pra que ele pudesse nascer para um outro mundo, para o além-vida, que, afinal, devia ser o mesmo lugar de onde veio.

Ela parecia emocionada e entendeu que aquele era o último momento juntos. Lambeu seu rosto e disse: AU-AU. Ele imaginou ou deduziu que ela tentava com toda sinceridade dizer na língua canina “eu te amo”. Ou “eu te amei”, já que era o princípio de seu fim. Ou quem sabe quis falar “eu sempre te amarei”. Antes que pudesse esboçar algum raciocínio filosófico ou gramatical sobre passado, presente e futuro sentiu suas pálpebras pesaram. A vida passou num flash. Fechou os olhos e dormiu para sempre.

Monday, June 09, 2008

Em fôrma

Tem gente que ama uma fôrma
e tenta desesperadamente
moldar as pessoas no seu próprio espaço
limitado

Tem gente que ama as pessoas
e tenta desesperadamente
moldar uma forma de ilimitar
seu próprio espaço

Televasão insanitário

Bosta
Descarga mental
Sei que você gosta
De telejornal

Saturday, May 03, 2008

Instante Eterno

Futucando aqui me lembrei que já tive um fotolog e pra minha surpresa ele ainda está no ar. Durou pouco mais de um mês. O nome do fotolog era Instante Eterno (que hoje soa quase como uma profecia sobre o destino do próprio flog) e o objetivo era aliar fotografia e literatura. Eis que descobri um escrito que nem me recordava existir e que serviu de abertura para o fotolog. Segue abaixo com algumas adaptações...

..........................................................................................................................................................................

A fotografia queria ser arte. Desafiou a poesia prum duelo de morte: só o mais forte sobreviveria.
Logo se gabou: "A voz do povo é a voz de Deus. E dizem que um imagem vale mais que mil palavras. Seu exército prolixo não será páreo pro disparar de meu gatilho preciso!" A poesia retrucou:

"Surgiste há pouco e queres desafiar a mim?
Sou da humanidade uma tradição secular,
desabafo silencioso dos que preferem não gritar,
consolo da vida, esse sofrimento sem fim ."

O duelo descobriu-se interminável. Cada golpe que sofriam do oponente os fortalecia mais e seus golpes feriam a si mesmos. Era a soberba quem os machucava. Então perceberam que eram arte justamente quando não tinham a pretensar de ser. Viram-se derrotadas por si mesmas. Era a pior das sensações.

Abaixaram a cabeça e decidiram regressar. Já haviam perdido a noção do tempo. As cores do dia se misturavam com as da noite mas não sabiam se o que vinha era a madrugada ou o alvorecer. Caía uma chuva fina e o vento frio que soprava da costa lhes fazia estremecer. Abraçaram-se e voltaram juntos pra casa, contemplando as águas diáfanas e dançando ao som do vai-e-vem das ondas.

Dali em diante resolveram que andariam juntas. Aqui. Sem pretensões, apenas sendo o que sempre foram: sinceras.

Friday, May 02, 2008

Passaporte

"E sei que a poesia está para a prosa
Assim como amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?"
Caetano Veloso


Solta da minha mão e vai. Voa leve, peito aberto, num sopro rasteiro donde possa mirar as flores do chão e ainda assim não te olvidar do brilho das estrelas do céu. Voa na simples poesia, na desnecessidade da rima, na liberdade dos versos, na métrica caprichosamente deformada.

Pisa descalço na uva, sente o cheiro da terra vermelha e úmida. Bebe o vinho doce de amor, colhe o alimento que brota do chão. Sente a música do violeiro dos dedos longos, barriga grande e bigodes fartos. Ouve o canto da lavadeira e escuta o assobio dos passarinhos até teu coração bater na mesma sintonia. Ri de si mesma, ri do amigo e do inimigo. Beija o sol, lambe a lua. Cumprimenta a rua, abraça a estrada. Sorri pra liberdade.

Senta na beira do asfalto. Espera se a carona não vem. Cantarola aquela nossa canção secreta pros momentos de solidão. Mas quando o próximo parar, abre-te o coração e transborda a alma. Chega pro canto e divide a cama, faz um esforço e reparte o pão. Preserva a lucidez mas não te esquece de te entorpecer. Conversa com ela e até flerta com ele. Não perde a sedução do primeiro olhar, da palavra inicial, do carinho tímido de todo começo.

O mundo só pesa nas costas de quem acredita ser mais fraco que ele. Esse peso vira pluma se o que te importa é a vontade de voar. Voa em sorrisos de menino, em balões de criança. Flutua no ar, saltando a fogueira e subindo certeira na noite de São João.

Voa por mim, voa pra mim e voa por ti. Porque eu te amo e te quero maior. Mesmo que não te veja, posso te sentir a todo momento. Nas lágrimas sorridentes que escorrem em mim. Nos sorrisos secretos que derramo por ti.

Vive o máximo e se algum dia nossas intensidades voltarem a se encontrar te confortarei em meus braços, pequena. Pra que depois, da palma de minha mão, possas alçar um novo vôo, cuja decolagem seguirei até onde o olhar alcançar. E quando não mais a vir, deixarei contigo e levarei comigo sempre o coração. Cerrarei os olhos e gozarei do imagético, viajarei nos sonhos de tuas venturas e aventuras enquanto sigo meu caminho. Como um cego que imagina a praia enquanto ouve a melodia das ondas e sente o frescor da brisa que sopra do mar.

Sunday, April 13, 2008

Haicais

Chuva de verão
ao molhar todo meu corpo
secou o coração


A vida assim vai
Pois o mundo todo cabe
Dentro de um hai cai

Thursday, April 10, 2008

Três pontinhos

Poesia é a arte de traduzir um universo de idéias em poucas palavras
Poesia é traduzir universo de idéias em poucas palavras
Poesia é universo de idéias em palavras
Poesia é idéias em palavras
Poesia idéias palavras
Poesia palavras
Poesia
...

Saturday, April 05, 2008

Vida concreta

Thursday, April 03, 2008

Eles inflam o peito e gritam a todos:
-Ética!
Eu susurro bem baixinho, só pra mim:
-É titica...

Ética
É ti cá
É titica

Wednesday, April 02, 2008

Carlos

No fim do caminho tinha uma pedra
tinha um caminho no meio da pedra
tinha um caminho
No meio do caminho tinha o povo
No meio do povo tinha um poeta bonachão
que tinha uma rima e não uma solução

No meio da poesia apareceu uma anjo torto
que não tinha nada a ver com a história e disse:
-Vai, Carlos! ser gauche na vida

A vida não chega a ser breve. Mas a festa acabou,
E agora?

Só mais uma dose...

-Que cara é essa, Serafim?
-Mais um dia infernal que chega ao fim.
-Agora o dia já foi, você precisa relaxar e sorrir.
-Tens razão. Preciso de uma dose antes de dormir.
-Dose de qual?
-De Leminski, que tal?!
-Dessa vodka não tenho. Onde posso encontrar?
-Dentro de ti vai achar, a poesia. Não dá ressaca, e alegra o dia!

Wednesday, March 26, 2008

Sumo* (A ti, Marco Antônio)

Em suma,
eu sumo
consumo
sem sumo
consumo indo
consumo vindo
vou consumindo
me consumindo
consumindo
sumindo
sumindo
sumindo
sumindo


*idéia 'adaptada' do poema A Ti, de Marco Antônio (Revista Caros Amigos Literatura Marginal II). Releitura, paródia, adaptação, plágio, chamem como quiser...

Estrela-do-mar

Noutro Klugart

Em tormento errou o nome
chamou calmaria de tsunami
agora padece do verso remoto:
a poesia inundou e lhe consome
Afoga-se num maremoto
de marasmo da mente parada.
Boiar não consegue, nada.
Só nada...
nada, nada, nada
nada
nada
nada...
E nada.

Friday, February 29, 2008

Fofo

Um poema recitei
Recém-tirado do mofo
Ela sorriu e me chamou de fofo
Acho que nunca saberei
Se ela me acha gay
Ou me chamou de gordo

Friday, February 22, 2008

Oda al Miojo (a Pablo Neruda)

Estaba él duro y desnudo
Miraba excitado en la olla,
Su nido de amor,
El agua pura y caliente
Como una virgen
Em luna-de-miel

Sus cuerpos se mezclaran
En tres minutos de placer
Y luego se quedó blandito

Le usurparan el água
Ardió el condimento picante
Que le jugaran sin pedir
Con abuso lo cortaran
Y lo comeran indefeso

Adentro de la boca se fue
A empezar otro camino
Pero este camino terminó
En mierda.

por Alfonso Valdéz

Saturday, January 26, 2008

Resete

Alguma vez algum homem desses qualquer quis mandar em seu destino. Atreveu-se a enfrentá-lo, sob os riscos das mais graves seqüelas. Começou assim, num dia qualquer como esse, num lugar tão banal que não fosse o marco de tal mudança, talvez nem se lembrasse mais. Era sua companhia uma caneta e folhas de papel mas bem que poderia ser a máquina de escrever, sua companheira de outrora, ou mesmo um computador, a detestável máquina que a modernidade lhe obrigara usar. Sentado em alguma superfície pouco regular que fizera de banco, sentiu que finalmente tinha encontrado o timing que almejava. As palavras apareciam em sua mente em ritmo e harmonia espantosos e carregavam uma sinceridade assustadora. Longe dele querer-se comparar ao grande poeta. Mas se foi Fernando Pessoa bem que poderia ser ele a escrever versos que encantassem tantos corações. E por que não? Valeria a beleza mais que a sinceridade?, pensou. Respondeu-se mentalmente que não. E sentiu-se igualado a todos os gênios dos grandes salões e aos poetas secretos do submundo. Deixou escapar um sorriso de canto de boca.
Escrevia com prazer estético nunca alcançado. Em beleza e coerência tudo se encaixava e já vislumbrava o gran finale cristalino em sua cabeça. Preparava-se como virgem para o gozo literário. Entre as linhas finais teve um treco. Pensou de repente se tudo não podia ser diferente. Tudo mesmo. Não só aquela história que escrevia por exigência da empresa, mas a vida. Era cada coisa que lhe impuseram. Se viu marionete num teatro abobalhado, infantil. E aí pensou que poderia ser senhor de si mesmo.
A primeira seqüela sofreria aquele romance, para sempre mutilado, nunca acabado. Estalou os dedos. Fez das folhas monitor; de seu corpo, computador. E se resetou. Num clique.

Friday, January 25, 2008

Barulho infernal

No meio do caminho tinha uma pedra
agora não tem mais
agora no meio do caminho
tem o prédio da Petrobrás

Thursday, January 17, 2008

Prazer escrito

"Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!"
(Álvares de Azevedo)

Queria nessa noite que seus dedos o dominassem. Que passassem desrespeitosamente a escrever, sem sequer ouvir sua mente e arrogantemente ignorando meu coração. Pensou que assim pudessem sair as mais bonitas palavras conectando-se lindamente e divagando sobre o sexo numa plástica tão bela como o abraço de dois corpos nus.

Pensou que assim as palavras enamoradas tocariam os lábios num sopro suave de primavera. Que o orvalho e o suor não mais seriam distinguíveis no lascivo amor da madrugada gozada ao redor de árvores. O toque lânguido das unhas marcasse como tatuagem por dentro da pele, escavando os profundos indeléveis caminhos d'alma. E que aquele piscar de olhos metralhasse fulminantemente qualquer pensamento que não tendesse ao pecado. A língua curiosa penetrasse o âmago dos segredos mais sinceros que haviam sido enterrados junto às promessas passadas. O susurro despertasse o corpo n'alvorada tímida que inutilmente se tenta fazer insossa e se armadilha ao tornar seu medo um charme absolutamente irresistível.O palpitar dos seios em vulcão jorrasse todo aquele desejo guardado sob as sete chaves do pudor. O gemer desavergonhado revelasse ecoasse aos corredores pornográficos das lavouras onde os jovens aprendem o prazer do pecado.O perfume de volúpia quedasse intrínseco nas quatro paredes em que os velhos em seus últimos suspiros trepam vagarosamente rumo ao além.

Queria ele, no fundo, que grito incontido de gozo rompesse os tímpanos daqueles que nessa mesma hora praticam o silêncio sepulcral da trepada secreta. E que todas as faces congelassem ao prazer, de bocas abertas e olhos cerrados, sem conseguir enxergar além da volúpia, o mundo que os cerca.O suor petrificasse se fazendo manto impenetrável às dores e carinhos. O cheiro do sexo bem feito penetrasse intrissecamente as narinas e lhes obstruissem qualquer odor que não fosse de carne e de prazer. E as bocas todas que se calem...não falem e chupem e suguem e comam tudo que o pecado pode oferecer.

Pois só assim, sem sentidos, o poeta não mais ficaria sentido. Nada teria escrito. Guardaria sensações e não palavras sobre amores que nunca viveu.

Angel in the flesh

Alexander J. Springfall

One person impossible to be annoyed
The human unable to be bad
A man that can be good when feel sad
Just to make other people satisfied

Don't be afraid beacuse he's strong and tall
For sure, his heart is bigger than all
My friend is so sensible and kind
Like an angel that fall from above
But in the flesh, heart and mind
To love the life and live the love

I guess he is a feeling, not a crature
He's the love in a package of man
Made by casual beauty of the nature
Or drawn with care by God's pen

Monday, November 19, 2007

Um Homem Chamado Cavalo

O cavalo portou-se feito homem
e pôs-se a galopar, elegante e soberbo
O homem, destraído, nem notou
e seguiu seu caminho, cagando e andando
feito um cavalo

Monday, October 15, 2007

Fracasso

As palavras em tinta jaziam turvas
no ataúde de papel umidecido por lágrimas
que percorriam as curvas sinuosas de seu rosto
a desembocar num mar de reticências
diante da ilha de marasmo espiritual
onde o poeta de sangue estanque
ruminava insípidas metáforas silvestres

por Noutro Klugart

Thursday, June 28, 2007

Álcool no sangue
sangue na veia
veia no pulso
pulso cortado
corte sangrando
sangue de álcool
álcool volátil
se esvaindo
feito éter
à eternidade

Saturday, May 12, 2007

Trago um trago
em gole e angústia
discurso como gago
na falta de astúcia

barba por fazer
cabelo a crescer
olhar perdido ao nada
buscando uma estrada

estou mais magro
me acabo em trago
me consumo em fumo
minha vida em resumo

tudo tão certo
exceto a distância
o homem esperto
esvaído em ânsia

meu mundo em escarcéu
sem o conforto do teu riso
não consigo alcancar o céu
nem me conformo em tocar o piso

Saturday, December 30, 2006

Lápide

Sempre faltou-me muito pragmatismo e um pouco de memória. Não sei se mudei minha vida ou se foi a vida que me mudou. Talvez ambos. Sei que está diferente, e tinha de estar depois de tanto tempo. Vou seguindo o caminho que acredito mas não sei nem se acredito em mim mesmo. Procuro paixões vibrantes que não são minhas e acho um vazio. Conformo-me com o mais ou menos em tudo e o tudo em nada. As palavras bonitas e complicadas não mais me excitam. Prefiro a rima fácil, a simplicidade poética que parece mais sincera e parecida com a vida, pelo menos com a que eu almejo ter.

Após uma ressaca física superada, sobra-me uma ressaca moral não curada. Deitado e abobalhado, ora olho fixamente para o nada ou observo a TV sem prestar nenhuma atenção, ora tento reconhecer os pedaços de eu no espelho da sala. O som baixinho toca "Stop Crying Your Heart". Mas não sei se o meu coração chora, sangra ou vomita. Sei que explode silenciosamente.

A louçaa suja, mesa cheia de copos revirados, cinzero de cigarros fumados pela metade. Meu corpo estirado no sofá, imóvel, parece pesar mais que o mundo que me acolheu com socos e pontapés. Adentro, a cama desarrumada e o livro que continua escancarado numa página que ainda não li. Mas a mulher de ontem não mais está lá. Foi-se, não disse adeus nem seu nome. Também não fazia questão de saber este ou ouvir aquele. E assim segue.

A caneta é meu consolo, o papel, minha ruína. O lixo vai se enchendo de folhas amassadas. Ah! Essa carreira de escritor fajuto está me transformando em um bom jogador de basquete. Morgado escrevo, empolgo, releio, detesto, rasgo, amasso e arremesso no lixo. Enquanto isso, as pessoas fazem as coisas mais diferentes nos lugares mais distintos. E eu aqui no nada fazendo nada. Sozinho. Estranhamente satisfeito.

Friday, November 10, 2006

Anjos atrevidos

Ah, quanto atrevimento
desses meninos pretos e pobres
de botar-me o dedo na cara
e fitar-me com raiva
olho no olho
de cobrar-me algo por eles
pedir-me um minuto de atenção
sair das calçadas
e subir no palco
obrigar-me a enxergá-los
espancar-me com a música
metralhar-me com sua arte

Mas que ousadia desses moleques
tirar-me lágrimas
dessa face robusta
roubar-me um sorriso
amarelo e emocionado
de quem acaba de tomar um lição de vida
quem são eles pra me tratar assim?
À mão desarmada
apontada pra minha consciência

Tamanha audácia
esse corpos amontoados
como mortos
ao choro de mãe
e o silêncio doloroso
interrompido pela vibração dos aplausos
palmas por sentir
sentir-se derrotado por eles
pretos, pobres, pequenos, frágeis
mostrando-se gigantes
muito maiores que nós

Saturday, October 07, 2006

Poderia ser tudo mais fácil, menina
se não buscasse o óbvio em cada esquina
talvez me encontrasse na calçada da rua
sentado, chorando, sonhando, olhando a lua
sorrindo, pulando, cantando, pensando... em você

Meu anjo, porque quer acreditar que não tem asas
e se conformar na segurança de ter os pés no chão?
se a caminho da felicidade tem que pisar em brasas
pra quê ir segamente pela estrada sem contramão?

O céu é horizonte expansivo pra voarmos livremente
flutuando num caminho de infinitas escolhas
os sonhos fazem brotar árvores da pequena semente
pra gerar ainda mais flores, frutos, galhos e folhas

Não entendo como alguém tão afável
prefere o riso hipócrita e confortável
ao choro glorioso de quem ousou sonhar
aceita o engodo da fria racionalidade
que tenta dizer-se dona da verdade
mas aos vibrantes corações não pode enganar

Largue essa vida forjada na busca de algum sentido
deixe de lado o medo de ser maior que nos foi permitido

Monday, September 25, 2006

O dia em que a negritude do ser humano venceu a brancura do papel

Saindo de madrugada e envolto numa conversa agradável com o colega sentado ao lado, praticamente não dormi. Após rápido cochilo, acordei. Despertava o alvorecer quando estávamos prestes a chegar. O sol se expandia maravilhosamente em cores vivas ao horizonte, desviando-se diante dos eucaliptos fincados à terra. Ainda que fosse princípio de manhã ele ardia como chama. Chama. Parecia realmente me chamar àquela luta. Soava como um prelúdio do que estava por vir ao longo do dia. As malditas árvores não mais impediriam o contato direto com a grandiosidade da natureza e do homem.
Vento na cara, fiquei observando o redor da estrada. Verde. Imensamente verde. Deserto, totalmente deserto. Deserto verte. Era ele mesmo que combatíamos, um dos motivos de irmos até lá. Fitei-o por longo tempo, ora olhando entre as frestas e procurando o que se escondia além do horizonte delineado por árvores caprichosamente paralelas e lineares, ora raivoso por me sentir sufocado em meio àquela uniformidade toda. Como dói aos olhos tropicais assitir ao domínio da natureza formatada. E saber que um dia aquilo tudo foi de uma incrível exuberância. Ah, mas nostalgia é conforto dos fracos. As lágrimas não secam enquanto não se lute por isso. Esse era o nosso propósito. Ver o passado revivido sob novos personagens, com a força dos que já se foram refletida e multiplicada no olhar de cada um que hoje estaria munido de coragem.

Continua aqui

Saturday, July 08, 2006

Silvia

O tempo todo estávamos juntos e não sabia. Não sabíamos. Sentíamos. Sente-se. Apenas sente-se à mesa posta e ceia comigo. Não fala que não precisa, deixa o conforto do silêncio nos dizer o que aquelas palavras todas não conseguiriam.

Sempre olhando pra ti assim gosto de lembrar. Eram tantos os sonhos que pareciam nunca chegar, mas que se multiplicavam e pareciam cada vez mais inatingíveis- e nem por isso menos desejáveis. E aquelas noites solitárias traziam um certo conforto que só hoje sei que eram teus afagos. Sem saber me carinhava e eu correspondia, sem querer, sem tocar. E nos víamos no refletir na lua.

Estranho. Logo nós, que nos achávamos tão fortes rendidos assim, por algo tão inexorável e que tão nos é superior. Atados e amordaçados. Vencidos, entregues. Felizes.

Não sei, mas parece tão óbvio. Nosso lugar-comum é tão comum, é tão simples, tão normal que chego a estranhar. Às vezes fico com medo. Medo de ter medo. De ter medo de ser feliz. Aí vem aquela música baixinha, o suspiro ao pé do ouvido, as unhas brincando de percorrer meu corpo e esqueço. Esqueço de todos e de tudo, do tudo e do nada. Parece que só existe o amor. O resto são coisas dispensáveis que a humanidade inventou pra tentar suprir a falta dele.

Wednesday, June 14, 2006

Te amo, amor
Amor, te amo
Amor te amo
A morte amo
Amem
Amem
Amém.

Monday, June 05, 2006

Luísa

Quadros bucólicos destoavam do quarto claustrofóbico ao qual ela se resumia naquele momento. Não havia porque nem por quem fingir que era feliz ali, vencida a ilusão de não estar a sós.

Corpo retorcido feito os galhos das árvores do quintal que não existia na infância que ela não teve. Lembranças melancólicas de um tempo que não existiu. Na visão distorcida de imagens desfocadas objetos estáticos sobrevoavam o chão oscilante. Ao som de cantos amordaçados e gritos afásicos, o ruído do rádio sem sintonia completava a fúnebre trilha sonora. O telefone fora do gancho evitava a ajuda que esperava mas não desejava.

Segredos enclausurados nas gavetas trancadas por chaves desaparecidas. Poemas que sobraram ardiam em fogo e se esvaiam em pó. Lágrimas esturricadas de um sangue já estancado.

Sonhos mortos estilhaçavam os espelhos de quem já não suportava mais se ver. O tilintar do brinde rachou as taças, derramou o vinho, obstruiu o caminho.

O parapeito desafiava: "Vai menina!". Ela ficou.
As armas intimavam: "Renda-se!". Ela lutou.

A racionalidade que cultivara com tanto afinco agora era vencida pelo que até então desconhecia e até hoje busca compreender. O sublime instante foi tão breve para que ninguém reparasse. Mas o mundo parou, para que ela girasse.

Monday, May 22, 2006

totalmente
total mente
mente total
men teto tal
mental teto
teto mental

Monday, May 15, 2006

Ponto final.
Fim.
Será o começo do fim ou o fim do começo?
O sonho não vem, a hora não chega
Coragem não há
Nem é covardia
Até quando?
Tudo acaba e não tem fim
A tortura não dói
O afago machuca
Até que termina
E começa tudo de novo
Sem fim nem começo
Só o agora
E continua...

Monday, April 17, 2006

Metáfora da desilusão partidária

Leia aqui

Sunday, April 02, 2006

Arte urbana

Um espetáculo me acordava todo dia
ao som da sua repetitiva melodia:
bate, bate, bate, bate estaca
trabalhador, preto, pobre, moço
tocou sirene, hora do almoço
marmita, comida, garfo, faca

comida? Engole! Bebida? Um gole
volta ao serviço, ergue tudo isso
água, areia, cimento, tijolo
colore, pinta, tinta no rolo

termina o acabamento
mas não pára o movimento
o caminhão traz mobília
e o carro traz criança
chegou toda a família
é hora da mudança

sai o preto entra o branco
entra pela frente, sai pelo flanco
um paga muito outro recebe pouco
mas todos felizes nesse mundo louco

O espetáculo chega ao fim
trabalho virou lar
e o que fica pra mim
depois da cortina fechar?

Mais um prédio pra me sufocar
Menos espaço pra me locomover
Menos coisas pra observar
Mais vizinhos pra não conhecer

Saturday, March 25, 2006

Mulheres e filmes, acasos e destinos

Ultimamente tenho usado as noites de sábado mais para ver um filme sozinho do que pra fazer filme pra mulheres. Mais um drama distante, na tela, do que sentir um drama real.
Às vezes, simplesmente não quero sentir, não quero viver com intensidade. Só esperar o que o tempo passar. Abro mão de momentos felizes por preguiça do sacrifíco que tal alegria me custará.

Não está sendo ruim. Que companhia pode ser melhor que eu mesmo? Não há divergências, eu penso igual a mim. Resta-me esperar até quando o desejo agüenta ou o acaso não vem.

Claro que não gosto mais de filme do que de mulher. Talvez isso esteja acontecendo porque tenho sido mais exigente pra escolher aquele do que esta. E por isso os filmes têm me enriquecido interiormente mais do que as mulheres. Alguns filmes me deixam uma mensagem, quando acabam não terminam. Continuam em minha mente. Muitas mulheres, não.

É um saco duvidar no destino e ser inimigo do acaso. Estou refém de um dos dois, não sei de qual. Mas seja qual for, preciso de sua ajuda. Preciso que o destino acredite em mim ou que o acaso me estenda a mão.

Sunday, March 19, 2006

Realidade construída (em versos)

É difícil aceitar
que a realidade é edifício
e que construí-la é nosso ofício.
Construção eterna mas etérea.
Tijolo por tijolo no desafio tolo
de termos um bom lar.

A realidade é nosso lar
e não podemos descansar.
Vivemos na realidade,
vivemos a realidade.
Vi, vemos a realidade.
Mas só parte dela,
parte aquela do ângulo da visão,
do limite da razão,
do estouro da emoção
ou da tela da televisão.

Do nosso prédio avistamos
vizinhos em desespero
construindo sozinhos o mundo inteiro.
Cada um com seu mundo,
construindo o tudo rumo ao nada,
sem perceber que nada é tudo
e que tudo não é nada.
Concomitantes, por todos instantes,
somos pedreiros e inquilinos
seguindo os destinos
que talhamos ou traçaram por nós,
fazendo e desatando nós.

Vivendo o presente
que ganhamos de presente
sem fazer pedido nem saber remetente.
Presente de grego,
pois não temos sossego
até ele pifar, até a vida acabar.
Árduo esforço ao trabalhador moribundo
que sua de blusa ou de terno
até o descanso eterno,
até o sono profundo.

Sem opção, temos a bomba na mão.
Somos escravos sem pirraça,
riso sem graça.
Graça sem riso,
casa sem teto nem piso.

Se a estrutura está fraca
façamos devassa,
traz mais argamassa pra fortificar.
Pra forte ficar.
O que é forte resiste e
quanto mais dinamite
pra levar ao chão
maior a glória da implosão.
E se for fraco, se deixar muito buraco
não precisa nem de um vento:
vira migalha com o tempo
e desmorona por si só ao relento.

A sua realidade você constrói sozinho.
Pode até olhar a do vizinho,
no condomínio da vida.
E com domínio da vida
se vai ao longe sem sair do lugar,
se faz infinito o que por certo vai findar.

Mas entre respostas sempre incompletas
e perguntas nunca respondidas,
entre sangue das veias abertas
e cicatrizes eternas das feridas,
vivem as certezas incertas
e morrem as certezas das vidas.

Sunday, February 19, 2006

Éramos

Sei que éramos felizes
sem sequer sabermos o que era a felicidade
Éramos simples
pois não sabíamos o quão complexa era realidade
Éramos vitoriosos
sem nem mesmo buscarmos a vitória
Éramos gloriosos
pois não fazíamos questão de ter glória

Sei que éramos vivos
sem nunca refletirmos sobre o existir
Éramos ativos
porque mais do que pensar, importava-nos agir
Éramos imortais
pois pensávamos na vida e não na morte
Éramos quase iguais
já que as diferenças nos tornavam mais fortes

Sei que éramos verdadeiros
sem sabermos que existem várias verdades
Éramos sempre pioneiros
pois não conhecíamos muitas variedades
Éramos o que tínhamos
porque a falta só nos fazia enriquecer
E éramos o que queríamos
pois não tinham nos ensinado como devíamos ser

Até que o tempo passou
nós crescemos, aprendemos
e só agora percebemos
que nossa essência mudou

Hoje temos muita sabedoria e sagacidade
e vemos um abismo nos separar da felicidade
parece que não atingimos nosso intuito
esse vazio demonstra que falta muito,
o que nossos livros não vão nos ensinar
o que nosso dinheiro não pode comprar
pois não têm preço, mas é gratuito

E agora, atônito, eu pergunto:

De que serviu tanto conhecimento e estudo?
Alguma coisa parece estar errada
Pois quando não sabíamos nada éramos tudo
E hoje que sabemos tudo não somos nada

Wednesday, January 25, 2006

O escritor sentimental

As palavras são a vida de um escritor
que vive as palavras com todo amor
mas amor nem versos enchem barriga
e ele teve que abaixar a crista
seguindo o que a vida obriga
o escritor virou um jornalista


Faz com prazer mas sem encanto
sobre a mesa derrama seu pranto
não pode sofrer tamanha humilhação
impuseram-lhe uma mutilação
a falta de espaço é o pretexto
de tal ato que lhe consome o cerne
pois editar o próprio texto
é como cortar da própria carne.

Thursday, January 19, 2006

Soneto I

Neste soneto busco uma proeza
Eu tenho quatorze versos apenas
Para através dessas linhas pequenas
Descrever a tua aturdente beleza:

Olhos verdes da cor da natureza
Um rosto fino com formas amenas
Lábios grossos, palavras serenas
Corpo que junta perfeição e pureza

Mas é intocável o que é mais belo,
E faz-me querer-te tanto assim
É seu coração humilde e singelo

Que pode tornar-se um estopim
Pois sabes, topo qualquer duelo
Para tê-lo somente para mim

Sobre o dia em que a moça pediu-me prova de amor

O vento soprava silenciosamente os cabelos presos pela fita. Fitava-me com olhos singelos que seduziam com uma inocência que o riso sarcástico e desafiador revelava não existir naquela moça. E as palavras delicadas que saíram docemente no entreabrir dos lábios, flutuando entre o assobiar dos pássaros e o suave barulho das águas, não negavam o tom provocativo da fala: “Prova que me ama que eu provo do teu amor”.

E lá vou eu. O homem move-se por desafios. E nenhum desafio é maior do que um pedido de uma mulher. Lá se vai mais um homem-zumbi, vagando pelos caminhos tortuosos, obstinado em atender aos caprichos da musa.

Deitei em meu leito solitário a pensar. Flores, doces, jóias, presentes... Não! O amor jamais seria provado por algo que pode ser comprado com algo que pode ser contado. Não há como comprá-lo nem contá-lo. Além do que, ele não é igual, não pode ser igual, jamais será igual. Então, para amores únicos, provas únicas. Palavras não são únicas, mas poemas são. São poços de subjetividade. Mas... Por onde começar? Busquei inspiração em Willian, em Fernando, em Álvares. Nada.

Pensei bem. Mas o que é o amor? Como provar algo que nem sei definir? Pedi ajuda ao Pai Aurélio. O velho robusto, do alto de sua sabedoria, só soube me dizer alguns conceitos como: “Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem”. Desculpe, mas é muito pouco diante da imensidão do amar. Talvez as palavras sejam vãs demais para falar do amor, os poetas não me animaram, o léxico não me convenceu. Enfim, o sono me venceu. Adormeci, sonhei. Adivinha com quem? Acordei sorrindo. Fui ao encontro dela.

De volta ao parque, ela estava no mesmo lugar à minha espera. Ao me vir, logo deixou escapar um sorriso largo e espontâneo, depois uma gargalhada. Provocante. Naquele momento tive a certeza que me pedira tal prova apenas para rir do meu fracasso. E pra me deixar o dia todo pensando nela. Conseguiu. Aproximei-me e disse-lhe: “admito meu insucesso em provar meu amor, mas nunca, o fracasso em te amar. Seja lá o que signifique tal verbo ou tal sentimento”.E de seus lábios delicados saíram palavras que aos meus ouvidos soavam como música: “Há coisas que não se explica, não se prova. Basta sentir”. Beijou-me. E naquele momento podíamos compartilhar o tão complicado sentimento. Não pensávamos em nada, éramos dois num universo limitado, num cerco infinito, num lugar sem problemas, sem ódio, sem ganância. O amor é sentimento egoísta, como a árvore que suga toda água e nutrientes do solo. Enquanto ele está agindo não há espaço para mais nada. Mas entre um amor e outro o homem encontra tempo pra destruir o mundo e a vida.

O amor. Este sentimento intangível, que alguns julgam inatingível, que não sabemos o que é mas sabemos perfeitamente quando chega. Algo absolutamente abstrato que se concretiza com facilidade nas batidas aceleradas do coração, no arrepiar dos pêlos, no friozinho na barriga, na gagueira na hora de dizer o que havia ensaiado tantas vezes, no sorriso instantâneo ao avistá-la. Talvez o amor seja apenas uma invenção humana, uma bobagem, ou um objetivo, um sonho que queremos viver o resto de nossos dias. Uma brisa que queremos que nunca nos deixe de refrescar. Um vento, intocável, invisível, indescritível, um nada. Ah, o amor não é nada. Mas é tudo.

Versos vazios

A cada fim de semana a história se repetindo
e vou destruindo fígado e coração
álcool e solidão se fundindo ao poucos
e os gritos roucos tentando me convencer
a me entreter nesse mundo que não é meu

o corpo cresceu mas vou me perdendo
e querendo acreditar que é momento
que tempo ajuda a superar
e me tornar alguém normal e feliz
mas quis ser isso que eu sou
não vou ser o que querem ver
vou viver morrendo a cada dia

Vida fria, sem amor e sem amar
sem odiar quem me odeia
a barriga cheia e o coração vazio
por um fio a vida se desfaz
incapaz de deixar algum rastro
e me arrasto sem vontade nem esmero
querendo acreditar que acredito no que quero

Crônica do primeiro aniversário

A festa de aniversário de um ano de idade é, sem dúvidas, um dos melhores retratos da imbecilidade humana. Apesar de serem os filhos que fazem anos, parece que os pais organizam a solenidade para eles mesmos. É um momento inesquecível...para os pais, não para os filhos (ou alguém se lembra de como foi a sua?). Enquanto os marmanjos bebem cerveja e jogam conversa fora, o pimpolho não faz a menor idéia de que, desde que foi concebido, o planeta Terra já realizou uma órbita completa ao redor do sol.

Não bastasse o fato de não saber o que está acontecendo, a pobre criança (que, por sinal, é a homenageada do dia) é proibida de desfrutar do que há de melhor no recinto. Ao invés de saborear o refrigerante geladinho, os salgadinhos apetitosos e os docinhos que dão água na boca, o aniversariante tem que tomar leite ou comer a famosa “papinha” que sua mãe lhe dá. Mas o pior ainda está por vir! O nenê, morrendo de sono e incomodado por aquele desconfortável chapéuzinho de festa, é obrigado a ficar horas tirando fotos com todos os convidados, enquanto os adultos bobões regressam à infância fazendo caretas ridículas para tentar pôr um sorriso no rosto do desanimado bebê.

O atentado ao livre-arbítrio infantil, entretanto, não pára por aí. Há sempre aquele cara que dá uma camisa do Flamengo, uma bola do Corinthians, um babador do Cruzeiro ou um boné do Grêmio de presente ao menino. É uma clara tentativa de influenciar na escolha do pequerrucho antes mesmo dele saber e entender o que é futebol.

Bom, eu já tive meu primeiro aniversário e, sinceramente, não faço a menor idéia do que ocorreu no dia em que deixei de ter 364 dias para ter...1 ano (Oh! Que grande transição). Mas tenho certeza que farei belas festas quando meus filhos atingirem essa idade. Não por eles, mas por mim; afinal, eu também sou humano. E ser humano é, antes de tudo, ser egoísta e privilegiar as suas vontades pessoais em detrimento da vontade dos que têm menos poder que você.

Aliás, com o estímulo do individualismo e do consumismo pelo sistema capitalista, a tendência é queas celebrações do primeiro ano de vida sejam cada vez mais constantes e luxuosas, repletas de canapês, croissants e champagnes de primeira qualidade. Portanto, se você fizer uma para seu filho, ou melhor, para você mesmo não se esqueça de me chamar, viu?

(des) Graça

A tevê na sala
a boca se cala
e o repórter fala
notícia abala:
a grana que entala
em cueca e mala

e vai desligá-la
silêncio instala
seu pai de bengala
a esposa acasala
com homem de gala
desistiu de amá-la

já o filho, inala
cheira sem pagá-la
nessa arma tem bala
o tiro estala
a podridão exala
do corpo na vala

A madrugada mais curta do ano

Hoje não tem rock. Não tem bebidas. Não tem ninguém. Esta noite eu sou minha própria companhia enquanto Ela não chega. Será só eu e Ela, que já adentra imperceptivelmente meu lar. Sem sequer pedir licença.

Dessa vez quem baila comigo é a grande Senhora, a Majestade do silêncio e da solidão. A madrugada é pior que a morte, pois teima em ir e vir todos os dias, tenaz a me torturar nos minutos que duram horas, na areia que parece nunca cessar na ampulheta.

Mas não fujo. Não hesito. O homem não pode temer seus inimigos. Será a madrugada minha inimiga? Creio que não. Hoje o que mais quero é estar com ela. Preciso estar com ela. Minha bela amante, quero tê-la até o fim. Quero brincar no teu doce jogo de sedução.

Não há música nem vinho. Não há requinte. Só um computador, uma TV e um copo de coca-cola.

A imensidão da Internet parece esgotar-se. As informações e os jogos não preenchem minh'alma. Não há mais ninguem para conversar no MSN. Só ela está aqui. Me observa e me seduz com a certeza de que serei todo seu. Vou buscar satisfazer-me na televisão.

Os meus passos ecoam no silêncio e na no vazio da sala. E esse vazio entra em ressonância com o meu interior, que quer esquecer que ama e é amado. Quero ficar só com ela. Ó cortesã, puta safada. Minha angústia compra teu prazer. E deleito-me estranhamente.

E vou assitir a um filme. Um drama. A história de um menino que descobre o amor e a amizade durante o tenso período da revolução cubana. Enquanto os homens se matam por dinheiro, poder e liberdade, para o pequeno só importa aqueles que moram em sua vila. Seu mundo é aquele. O meu é ainda menor. A cada lágrima na tela me lembro que estou a sós com a Grande Majestade. O final do filme é triste, mas meu coração petrificado não permite que minha face umideça.

Vou à varanda. Observo os prédios ao redor. Luzes apagadas. Que bom! Parece que ninguém mais está a sofrer como eu. Um riso sarcástico faz-se em meu rosto: "Não sabem o que perdem deitados em seus travesseiros", sussuro.

Volto à TV. Do outro lado do mundo, carros de corrida disputam a supremacia da velocidade. Se para eles cada milésimo significa uma eternidade, pra mim as horas passam numa pachorra entediante. É o Grande Prêmio da China. Lá já é dia. Mas o dia nada mais é do que o prelúdio de mais uma madrugada agonizante que está por vir.

Às 5h40min o céu já está clareando. E aos poucos a natureza me cede mais um espetáculo. As cores se fundem nesse melancólido alvorecer. E vou me despedindo de minha companheira. Amada e odiada, bela e leviana, angustiante e irresistível. Um beijo de morte com um sol já raiando ao horizonte. Mas com a certeza de que ressucitará e logo estará a fazer-me companhia novamente.

E tanta tortura se deu no dia 16 de outubro. Dia em que começou o horário de verão. Uma hora pra adinatar no relógio. Foi a madrugada mais curta do ano. Pra quem dormia. Porque pra mim pareceu a mais longa, mais dolorosa e mais prazerosa.

E mais uma madrugada se vai. E mais um dia insiste em nascer sabendo que Ela voltará...

Efemeridade eterna

Antes de chegar ela está,
sua aura se avista ao longe,
no sorriso, no jeito de andar.

Enquanto ela passa agente pára,
impossível não contemplar.

E quando se vai, ela fica,
permanece seu brilho no ar.

Champagne amargo

Junte seus vizinhos dos edifícios de luxo e formem suas milícias!
Pode fuzilar quantos quiser, sempre existirão outros pra matá-lo, com armas mais poderosas que as suas, compradas com o dinheiro que seu filho gastou com drogas.

E quanto mais você explora, mais você ganha. E sugando do outro você se torna maior, e pisando nos outros você sobe pro seu mundo superior, mesquinho. Você acha que pode comprar tudo e acha que a miséria é culpa deles, os incompetentes que não sabem lucrar.

Mas nem tudo se compra. Viva seu mundinho enquanto seu império ainda não ruiu. Talvez só quando o revólver estiver armado, em punho daquele que você sempre destratou, munido de pólvora e ódio, você perceba que seu dinheiro não serve mais pra nada. E só por alguns segundos, na efemeridade entre vida e a morte, no instante entre o apertar do gatilho e o disparar da arma vocês se arrependa do que fez e deixou de fazer. Tarde demais. Sobre seu ataúde haverá mais flores que choros, mais indiferença que saudades. Seu champagne fará mais falta que sua prensença.

Wednesday, January 18, 2006

Ensaios sobre Eu II

Na verdade não sou bom nem mau, bonito nem feio. Sou estranho e normal.Depende do referencial.

Vivo tentando entender porque o mundo está assim, entender o homem, entender você, entender a mim.

E quem é o dono da verdade pra dizer o que é certo e o que é errado? É questionando e duvidando que descubro o outro lado.

Antes de agir sempre me perguntei se iria adiantar. Sei que enquanto fiquei parado nunca fiz nada mudar.

Pensar bem pra agir na hora certa. Estar sempre disposto mudar, manter a cabeça aberta.

Viver e não apenas sobreviver. Ser ao invés de simplesmente existir.

Tuesday, January 17, 2006

Ensaios sobre Eu

Sou uma obra inacabada.
Sou o sangue que corre em minhas veias, o suor que escorre em meu corpo, a lágrima que cai do meu rosto.
Sou o pensamento intangível que passa por minha mente.

Sou normalmente estranho e estranhamente normal. Sou algo entre o óbvio e o incompreeensível. Sou o que sou e também o que não sou. Sou o que quero ser, sou o que não quero ser e sou o que você acha que eu sou.

Sou alguém que você provavelmente não conhece. E se conhece dificilmente compreende. Mas sou alguém como você que, em maior ou menor intensidade, sonha, pensa, sente, vive.

Wednesday, January 04, 2006

Minha tristeza, minha luta










Não quero mais viver nessa floresta sem vida
nesse vazio minha visão vai longe
mas tudo que vejo é um nada

Cadê a vida que um dia esteve nessa terra?
O canto dos pássaros silenciou
a beleza das flores feneceu
a cultura de meu povo foi derrubada
em golpes de machado e ganância

Que papel é esse que vale mais que nossa história?
Que fumaça é essa que embaraça nossa memória?

Sei que nada sou perante esse império,
que nada entendo desse mundo de pastas e homens de terno
mas hei de lutar até a morte pelo que é do meu povo

Se meu sangue escorrer por esse rio
e um dia desaguar numa terra em que viva meu neto ou meu filho
do alto sorrirei um raio de sol
para que nos olhos de cada um se reflita a virtuosidade da natureza
e se mantenha viva a chama dessa harmonia

Monday, January 02, 2006

Poema-pílula

Use sem prescrição médica.